Física Quântica e Meditação

Entenda como as respostas atuais da Física Quântica se relacionam com a meditação.

Você acredita que é possível integrar ciência e espiritualidade?  Na sua visão, quais seriam os caminhos possíveis para fazer essa ponte? Pessoalmente, acredito que é fundamental refletir sobre essa conexão, pois ela pode trazer insights importantes e um sentido ainda maior para a nossa existência. Topa fazer uma reflexão sobre isso juntos?

Para fazer a conexão entre ciência e espiritualidade, convido você a navegar pela história da ciência, chegando às respostas atuais da Física Quântica e aos paradoxos que foram surgindo nessa evolução linear do tempo e sua relação com o Sagrado e a meditação. Bora?

Quando tudo começou

A história começa na Grécia no século VI a.C., com a Escola de Mileto, na qual filosofia, ciência e religião não estavam separados. Heráclito de Efeso acreditava em um mundo em eterna mudança, um “eterno vir a ser”. Ele via os pares de opostos como uma unidade que contem e transcende todas as forças opostas. Porém, a partir da Escola Eleática deu-se a divisão dessa unidade, na qual havia um Princípio Divino posicionado acima de todos os deuses e de todos os homens. Esse princípio passou a ser encarado como um Deus pessoal e inteligente, situado acima do mundo e dirigindo-o.

Dessa forma, originou-se um pensamento que separava espírito e matéria, gerando o dualismo que se tornou a marca da filosofia ocidental. Acompanhado do nascimento da ciência moderna de Galileu, a formulação extrema do dualismo espírito/matéria teve origem no século XVII. Você sabe por quem? Foi por meio da filosofia de René Descartes, também conhecida como “divisão cartesiana”. Para Descartes, a visão da natureza derivava de uma visão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente e o da matéria.

Da Física Clássica à Física Quântica

A divisão “cartesiana” permitiu aos cientistas tratar a matéria como algo morto e apartado de si mesmos. Essa visão mecanicista foi sustentada por Isaac Newton, tornando-a o alicerce da Física clássica. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. Afirma Capra:

“A filosofia de Descartes não se mostrou importante apenas em termos do desenvolvimento da Física clássica, ela exerce, até hoje, uma tremenda influência sobre o modo de pensar ocidental. A famosa frase cartesiana Cogito ergo sum (“penso, logo existo”) tem levado o homem ocidental a igualar sua identidade apenas à sua mente, em vez de igualá-la a todo o seu organismo. Em consequência da divisão cartesiana, indivíduos, na sua maioria, têm consciência de si mesmos como egos isolados existindo “dentro” de seus corpos. (…) “A crença de que todos estes fragmentos – em nós mesmos, em nosso ambiente e em nossa sociedade – são efetivamente isolados pode ser encarada como a razão essencial para a atual série de crises sociais, ecológicas e culturais. “  (1975, O Tao da Física)

A exaltação da separatividade

Embora essa fragmentação possa ser vista como a razão essencial para as atuais crises sociais, ecológicas e culturais, é importante ressaltar que a fragmentação é um aspecto natural da evolução humana. Especialmente na dimensão dual em que vivemos, cuja evolução é fruto justamente da experiência entre as polaridades complementares. Vale lembrar que este período de exaltação da fragmentação como forma de conhecimento foi positivo em vários aspectos da história. Além disso, ela própria nos direciona de volta a ideia da Unidade, conforme ressalta Capra:

“A divisão cartesiana e a visão de mundo mecanicista têm, pois, apresentado pontos positivos e negativos. Por um lado, mostraram-se extremamente bem sucedidas em termos do desenvolvimento da Física clássica e da tecnologia, por outro, tem apresentado inúmeras consequências adversas para nossa civilização. É fascinante observar a forma pela qual a ciência do século XX, que se originou da divisão cartesiana e da visão mecanicista do mundo (e que, realmente, se tornou possível graças a essa visão), agora supera essa fragmentação e nos leva de volta à ideia da unidade expressa na Grécia antiga e nas filosofias orientais.” (1975, O Tao da Física).

De volta à Unidade

A Física Quântica surgiu como consequência de resultados inquietantes obtidos a partir de experimentos precisos. Esses experimentos trouxeram evidências que são parte importante da superação dessa fragmentação para a qual caminhamos. Por exemplo, o famoso experimento da “fenda dupla”, no qual se descobriu que a matéria hora se comporta como partícula, com posição e trajetória bem definidos no espaço; hora se comporta como onda, com frequência e habilidade de desviar obstáculos. A partir desta experiência, Bohr propôs o Princípio da Complementariedade, no qual a natureza de onda e partícula do elétron não são dualísticas, nem simplesmente polaridades opostas, mas propriedades complementares:

“As naturezas de onda e de partícula do elétron não são dualísticas nem, simplesmente, polaridades opostas, são propriedades complementares que nos são reveladas em experimentos complementares”. (BOHR, 1995)

Respostas da Física Quântica

São muitas as contribuições da Física Quântica. Entre elas, podemos citar a quebra do determinismo, que leva ao princípio da incerteza; a noção de não-linearidade por meio da descoberta da descontinuidade dos saltos quânticos; o princípio da complementaridade entre observador e objeto, que simplesmente desconstruiu a ciência na qual se acreditava até recentemente, visto que a experiência é uma extensão da mente dos cientistas; e especialmente as infinitas possibilidades da realidade a partir do Observador.

O Principio da Complementaridade, por exemplo, evidencia que não encontraremos uma visão única da realidade, mas perceberemos infinitas visões complementares. Ao mudar o referencial interno, o mundo muda, os “objetos” e suas propriedades mudam. As propriedades, portanto, não são dos objetos, mas da forma como olhamos, quais estruturas mentais usamos.

“Objetos não são coisas determinadas, mas possibilidades.” (GOSWAMI, 2008)

Além disso, a mecânica quântica mostra que o foco também determina a realidade e ajuda a compreender que não há um mundo externo pronto e independente de quem o experiencia.

“O que a matriz ou luz dos nossos olhos projeta sobre as formas contém uma predisposição inconsciente no sentido de controlar os fenômenos, de impor-lhes o seu próprio ritmo e dimensões “ (SAMTEN, 2010)

Entendi Sandrine, mas o que tudo isso tem a ver com meditação e espiritualidade?

Embora existam diferentes conceitos possíveis para o que é a meditação, um ponto em comum entre eles é a prática da auto-observação, que traz consciência e familiarização com as próprias estruturas mentais através das quais projetamos a realidade que enxergamos. Além disso, a partir da auto-observação, é possível escolher e transformar as estruturas mentais e assim transformar a própria realidade.

Outros exemplos de como a Física Quântica se relaciona com a meditação é a estabilidade da mente e a liberdade de escolha pela não-reação frente a determinados estímulos, e principalmente, a experiência direta da realidade, a ciência em primeira pessoa, que nos leva ao sentido do Sagrado que permeia a tudo e ao todo. De acordo com Capra:

“No nível atômico, os objetos materiais sólidos da física clássica dissolvem-se em padrões de probabilidades, esses padrões não representam probabilidades de coisas, mas sim, probabilidades de interconexões. A teoria quântica força-nos a encarar o universo não sob a forma de uma coleção de objetos físicos mas, em vez disso, sob a forma de uma complexa teia de relações entre as diferentes partes de um todo“. (1975, O Tao da Física).

Assim como a meditação, compreender a Física Quântica exige ir além do intelecto. Algumas práticas, como a meditação ou outras mais simples como a contemplação da natureza, pode levar o cientista a experimentar um estado ampliado de consciência, no qual tudo está conectado. Onde o observador é o observado. Neste estado de consciência, você pode se conectar à dimensão do Sagrado que está além da dualidade, da teoria e das palavras. Perceber o Universo como uma teia de relações entre as diferentes partes de um todo é uma dimensão da consciência que pode ser experienciada por meio da prática da meditação. Por isso, praticar meditação, pode também ser considerado um ato de fazer ciência em primeira pessoa.


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Sobre o Autor

Sandrine Swarowsky
Sandrine Swarowsky

Desde que fui morar na Grécia em 2008, uma série de mestres e sincronicidades me despertaram para a dimensão espiritual. Isso me levou a uma crise vocacional e a partir disto a buscas que me levaram a um encontro extraordinário: o encontro comigo mesma, uma semente que venho cultivando e que vem crescendo e que, como toda grande colheita, é para ser compartilhada! Saiba mais em Autora.