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Autor Convidado

Para cuidar, precisamos escutar – por Roberto Crema

Para cuidar, precisamos escutar. A escuta é o mais essencial medicamento. É uma grande arte, pois só realmente escuta quem é capaz de silêncio interior. De outra forma, os diálogos internos serão projetados, contaminando e adulterando o que se supõe escutar. A escuta não projetiva é um bem precioso e raro, dos que cultivam a mente meditativa e contemplativa, nas trilhas do despertar para o Instante, a pátria da Presença. Escutar é ouvir e, também, interpretar. Aqui nos deparamos com a ciência e arte da hermenêutica, que possibilita o desvelar de um sentido, muito além de meras explicações.

O exercício de uma interpretação aberta e vasta ultrapassa o campo analítico, rumo ao universo sintético, dos significados íntimos, das sincronicidades, dos mergulhos nos abismos anímicos e noéticos. Sem negligenciar a sabedoria dos velhos rabinos, afirmando que cada frase bíblica é suscetível de setenta e duas interpretações! Assim, nos prevenindo contra os malefícios de um certo analfabetismo simbólico, quando o conotativo se degenera em denotativo, com as armadilhas nefastas e mutiladoras dos fanatismos e fundamentalismos decorrentes. Enfim, dos catecismos redutores e estupidificantes, sejam eles religiosos, ideológicos, psicológicos, psiquiátricos, pedagógicos… Eis uma virtude preventiva com relação ao absurdo da maioria das guerras contemporâneas!

Para cuidar, necessitamos também de uma ética da bênção. Abençoar é bem dizer; expressar uma boa palavra, jamais reduzindo o outro a um rótulo, a um mero objeto de análise. A pessoa não é doente; ela está doente. A doença é um momento de uma passagem, de um processo, de um devir. Ser Terapeuta é restituir o outro na condição de Sujeito da sua existência, de suas dores e louvores. Já que a informação tem uma função estruturante, o diagnóstico, aplicado de forma tecnicista e descuidada, pode ser um ato normótico, fonte de iatrogenia. É uma violência que pode modelar a própria doença proclamada, antes incipiente ou inexistente.

Abençoar é, também, bem olhar. Olhar para o outro na sua dignidade e integridade essencial, na sua nobreza de filho unigênito da Vida, dotado da originalidade de um semblante. Também o olhar é estruturante, para quem olha e para quem é olhado. Quando olhamos apenas para o pequeno e o disfuncional no outro, será isto que estaremos estruturando, nele e em nós mesmos. Já que nos tornamos naquilo para o qual olhamos. Enfim, encontramos o que buscamos. O estilo alexandrino, sem deixar de acolher e de cuidar dos sintomas, privilegia e busca no outro o que ele tem de maior: o dom do Ser e a luz interior, muitas vezes esquecida e, mesmo, reprimida. A porta na qual se bate é a que abrirá, no tempo justo…

Como indica o mitologema de Caim e Abel, uma pessoa que se sente abençoada é pacífica e caminha docemente sobre a terra. Já o outro, que não se sente aceito nem abençoado, que calcula e inveja, é uma fonte de violência e de sofrimento. Caim é o arquétipo do ser que se sente renegado e excluído, no interior de nós mesmos. Apenas uma terapia da bênção pode facilitar que ele se converta, retornando ao eixo de seu centro, o Paraíso Perdido do Amor. O que é verdade, também, com relação a todos os tiranos que contaminam a humanidade com o vírus do ódio, da iniqüidade e da ignorância existencial.

Assim como a paz não é ausência de combate, saúde não é ausência de sintoma. Como bem define a Organização Mundial de Saúde, é a presença de um estado de bem-estar psicossomático, social, ambiental e espiritual. Transcendemos, assim, a noção estreita e normótica de que saúde é uma área de dedicação apenas para médicos, psiquiatras, psicólogos, fisioterapeutas, enfermeiros… No Cit (Colégio Internacional dos Terapeutas), consideramos três categorias de terapeutas, cujas ações são convergentes e complementares: a clínica, a social e a ambiental. Além da terapia dos indivíduos, carecemos de uma terapia de cunho social, que seja exercitada nas organizações, escolas, igrejas e demais instituições, públicas e privadas.

(…)

O que nos pesa é o que não entregamos, o que não ofertamos, o que não servimos. O que nos tira a paz é o que retemos, o que estagnamos em nós, o peso de nossos apegos. Nosso corpo de leveza e de plenitude é construído a partir de tudo o que somos capazes de doar, de forma gratuita e incondicional. É na alegria desta conquista, que afirmaremos, a moda de oração, no mais ensolarado e abençoado dia de nossas existências, estas palavras de triunfo da Vida: Confesso que servi.

Não basta existir, há que viver. Não basta viver, há que ser. Não basta ser, há que transparecer. Não basta transparecer, há que servir. E só então, partir. Saciado de dias e de noites, de luzes e de sombras, de amores, tremores e louvores. Em paz, como um avô sorridente, descascando uma laranja para o seu netinho. Confiante, como uma criança inocente se jogando nos braços de sua mãe. É longa e paradoxal a caminhada de retorno à Morada da Essência, de onde jamais partimos…

*Este texto é uma parte do capítulo do livro, A Paz como Caminho, do Festival Mundial da Paz – Manifeste sua Paz (Florianópolis, de 1 a 6 de setembro/06), organizado pela Dulce Magalhães (Qualitymark editora). Confira o artigo “Cuidar da Paz” na íntegra no site www.robertocrema.com.br

Roberto Crema formou-se em Ciências Sociais – Antropologia e em Psicologia. Realizou diversas formações humanísticas: Análise Transacional, Gestalterapia, Terapia Familiar, Bioenergética, Abordagem Centrada na Pessoa, Biodança. Em 1981 encontrou-se com Pierre Weil e, através do Cosmodrama mergulhou no movimento Transpessoal. Em 1987, com Pierre Weil, Jean-Yves Leloup e Monique-Thoenig, coordenou o I Congresso Holístico Internacional – I CHI, que impulsionou a fundação da Universidade Internacional da Paz – UNIPAZ. Como vice-reitor da UNIPAZ, introduziu no Brasil a Formação Holística de Base, que irradiou a universidade no Brasil, na Argentina, Portugal, França e Bélgica. Colaborou com Jean-Yves Leloup na criação do Colégio Internacional dos Terapeutas – CIT, que coordenou no Brasil durante vinte anos. Após a passagem de Pierre Weil, em 2008, assumiu a reitoria da UNIPAZ. Realizou um Master Europeen de Recherche na Universidade de Paris 13 em conjunto com a de Louvain-la-Neuve (Bélgica), a de Genève (Suíça) e o Cnam (França), centrada na Formação Holística de Base da UNIPAZ e sua convergência com a Abordagem Biográfica. É membro honorário da Associação Luso Brasileira de Transpessoal – ALUBRAT, Fellowship da Findhorn Foundation, autor e coautor de mais de trinta livros.

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