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Autor Convidado

O Sagrado nos processos de cura e transformação – por Manoel Simão

Com certeza este é um momento histórico muito auspicioso para refletirmos sobre o processo em que a humanidade se encontra enquanto evolução e sobrevivência, mas especificamente nos diferentes níveis de possibilidade de ajuda e transformação que podemos oferecer aos nossos clientes e pacientes. A relação de cuidado em psicoterapia e nas diferentes modalidades passa sem dúvida alguma pelo resgate da dimensão do Sagrado quando o enfoque é em intervenção nas abordagens Transpessoais, seja em psicologia e nos processos de educação e formação humana. Compreender a importância do contexto da formação humana e sentido do desenvolvimento de uma espiritualidade transreligiosa nas atividades ligadas a saúde e educação em geral se faz necessário para um aprimoramento profissional e a diminuição de pré-conceitos estabelecidos sobre o tema.

Propomos refletir sobre tais conceitos em sua dimensão transformadora na relação de ajuda dentro da perspectiva antropológica e visão de Homem e mundo na Abordagem Integrativa Transpessoal (AIT) de Vera Saldanha (2008). A Concepção de Homem e de Mundo na Psicologia do Sagrado desenvolveu-se à partir da Psicologia Junguiana e da Psicologia Transpessoal. Seu conceito sobre a Consciência tem base no conhecimento das antigas Tradições Sagradas.

A Psicologia do Sagrado, organizada, sobretudo, nos Estados Unidos da América, conforme definida por Jean Houston, psicóloga e uma de suas maiores articuladoras -, pretende reviver as experiências humanas mais fundamentais, aquelas de natureza arquetípica e que, consequentemente, permeiam os vários discursos humanos, sejam em contextos ocidentais ou orientais. Sistematizada através de técnicas que combinam a narração dos grandes mitos, de forma a possibilitar uma nova vivência para as experiências que são perenes ao gênero humano; influenciada pelos antigos sistemas de cura na Grécia e do Egito antigos; emprestada à compreensão teórica de William James e Ilya Prigogine, entre outros; Rudolf Otto, teólogo luterano alemão, é sem dúvida um importante autor que nos descreve com detalhes sobre o conceito e experiência do Sagrado que o menciona como uma experiência do numinoso analisando em sua obra como as pessoas reagem diante do sagrado, ou seja, sua atenção não está voltada para testemunhos da história da religião mas para a vivencia concreta da religião e da mística e como as pessoas experimentam o sagrado (Otto, 2007).

Outro aspecto de prática da Psicologia do Sagrado é a exploração do potencial transformador dos símbolos. Os símbolos possuem um sentido manifesto facilmente apreendido, e o outro oculto que remete a uma realidade maior, transcendente e espiritual – revelam a essência e o fundamento da vida espiritual. Aliados à expansão da consciência para que o indivíduo possa restabelecer o contato com o centro.

Segundo Houston (1990), o terreno do sagrado se define por experiências que proporcionam ou possuem as seguintes características:

1. Indescritibilidade, experiência- que se distingue totalmente do cotidiano e do ordinário não pode ser verbalmente descrita com facilidade.
2. Introvisão – aumento instantâneo da compreensão sobre um determinado assunto – profunda.
3. Alteração da percepção do espaço e do tempo.
4. Sentimento de totalidade: percepção da unidade, interligação e sentido de todas as coisas.
5. Sentimento de amor por si mesmo, pelo outro, pela vida.
6. Sentimento interior de paz e harmonia.

O termo imaginal foi dado a este nível por Henry Corbin que se remete a percepção sutil, a imaginação espiritual, a uma possibilidade de viajar entre distintas realidades além do domínio físico, de ter acesso sutil a fonte universal de cura que é Espírito. Nos estudos de Henry Corbin aparece em Mundo Imaginário, do latim como o Mundus Archetypus ou Mundus Imaginalis. O Arquétipo no sentido Sufi – significa uma forma espiritual e o Mundus Imaginalis, seria o mundo que estas formas puras habitam.

Para Corbin (Aaron, 2001) o Mundo Imaginal é um mundo real, que preserva toda a riqueza e diversidade do mundo dos sentidos, mas em um estado espiritual. Distingue ainda o Imaginário – fantasias que fabricamos acordados com nossa mente racional, e Imaginal – que deriva do Mundus Imaginalis ou a realidade mais elevada de Imaginação espiritual.

Corbin acrescenta que é o mundo dos corpos sutis, que liga o espírito e o corpo material. Inclui muitos graus, impenetrável pelos órgãos sensoriais – É o local de eventos psicoespirituais, visões, carismas, quebra de leis de espaço e tempo. Afirma ainda que com o corpo sutil, cada um de nós tem a faculdade sutil ou órgão que nos permitem transitar no mundus imaginalis. Esta faculdade seria a imaginação criativa.

Para a Psicologia Sagrada, o anseio inerente a cada alma humana é o de vivenciar a união com esta realidade suprema. Entretanto talvez só os santos e iluminados, podem suportar tal luz deste nível segundo as tradições. Uma das discrições sobre um momento de integração destes três níveis referem-se a uma das experiências de Jesus.

Lembrando que Jean Houston trabalhou com Joseph Campbell e Margareth Mead e desenvolveu um método prático de trabalho com mitos ao qual chamou Jornada de Transformação. Neste contexto Houston propõe o herói ou a heroína, os quais, tem dois trabalhos:

1° Afastar-se da vida diária, abrir-se para vida criativa, único acesso a fonte.
2° Retornar ao cotidiano com um conhecimento adequado as profundezas e coloca-lo a serviço da redenção do tempo e da sociedade.

Manoel Simão, psicólogo, educador, mestre em Neurociências e Comportamento, pós-graduado em Psicologia Transpessoal, Transdisciplinaridade e Educação para a paz, Psicologia da Saúde, Terapia comportamental-cognitiva; Terapia Regressiva Vivencial Peres; EMDR; Hipnose Ericksoniana; Membro da diretoria da UNIPAZ – SP e ALUBRAT Brasil. Coordenador da pós-graduação em Psicologia Transpessoal da ALUBRAT – S. Paulo.