O Propósito da Vida – por Dulce Magalhães

Qual será a finalidade de cada vida humana? Haverá um propósito maior para a existência ou ela se basta em si mesma? Essas são questões sobre as quais se debruçaram sábios e filósofos de todos os tempos. Também é ao redor dessas questões que as diferentes culturas humanas elaboraram seus códigos religiosos, éticos e morais.

Essas não são perguntas de pouca importância, mesmo que, aparentemente, não afetem pragmaticamente a gestão do cotidiano, nem interfiram nas ações do dia a dia. Dá para levar a vida sem respondê-las, só não estou certa que seja possível viver plenamente sem tê-las como guia.

Uma antiga história indiana fala sobre um discípulo que é convocado por seu guru a se mudar para outra cidade e lá construir um ashram para que o mestre, quando for o tempo certo, chegue para ensinar àquela comunidade. O discípulo obedece, se muda e para se sustentar começa a comercializar tapetes. O negócio prospera e o discípulo passa a ser o empresário de uma rede de lojas de tapetes. Um dia o guru chega e pergunta sobre o ashram e o discípulo neste momento leva um susto, pois havia esquecido da razão maior de estar ali.

Esta é uma das histórias da sabedoria tradicional que nos faz refletir sobre o propósito de vida. Não estaremos nós distraídos com o desafio da manutenção diária, das contas a pagar, das demandas sociais, do consumo e da conquista de maior sucesso, segurança, realização, ou o que seja? Será que há outro propósito, ou um objetivo maior, do que realizar a vida que conhecemos ou almejamos?

Realmente não precisamos responder a essas perguntas para pagar nossas contas, porém a forma como fazemos e gerimos essas contas tem tudo a ver com essas respostas. Talvez seja o caso de nos questionarmos sobre o modelo de mundo em que estamos operando a vida e em que medida esse modelo atende as aspirações de nosso Ser.

O que é uma vida verdadeiramente vivida? Acredito que tenha a ver com nos tornarmos tudo o que somos capazes de ser, de uma forma ecologicamente integrada, fazendo de nossa experiência uma plataforma para tornar o mundo um lugar melhor.

Começando pelo nosso próprio mundo…

Por não se dar conta da dimensão transitória da existência não aceitamos a natureza inerente do mundo, que é a mudança, e assim buscamos perenizar e capturar o impalpável. Não seguimos nosso coração e nos atemos aos roteiros pré definidos que nos ensinaram sobre o que é a realidade e nos vemos, por vezes, prisioneiros de comportamentos, hábitos, tarefas, empregos, relacionamentos, responsabilidades ou demandas que não falam à nossa alma.

Muita gente expressa medo ou angústia frente ao tema da morte, entretanto esse portal existencial é o destino ao qual nos deveríamos preparar e almejar. Ao compreendermos a morte poderemos transcender o desafio da sub-existência e viver a vida de forma mais plena e profunda. Não compreendemos e não refletimos sobre a transitoriedade por uma ilusória percepção sobre o que é a morte e o que ela representa.

Se pudermos internalizar a perspectiva da impermanência de todas as coisas, não nos liberamos apenas do medo da morte, mas, ainda mais importante, nos liberamos do medo da vida, este sim o maior portal a ser transposto. Não estamos prontos para viver a liberdade de escolher a melhor vida. Decidimos, elegemos, escolhemos, renunciamos ou desejamos dentro do cenário mais restrito dos paradigmas impostos pelo ambiente cultural em que crescemos.

Por mais “rebelde” que sejamos, ainda pensamos a partir de uma referência paradigmática, ou seja, pensamos a partir do que conhecemos como modelo e assim nos orientamos por isto, definindo se gostamos e seguimos o modelo ou se não gostamos e o repudiamos. Porém, o modelo não é o campo mais amplo da realidade, é apenas uma fatia das inúmeras possibilidades existentes. Nos definimos dentro ou ao redor do modelo de mundo conhecido, pois dependendo do nível de consciência em que nos encontramos temos dificuldade em extrapolar o cenário conhecido e nos aventurarmos em um ambiente mais vasto de escolhas.

Costumo dizer que precisamos “zerar o HD”. Sugiro aos meus clientes e alunos um exercício que considero fundamental para uma perspectiva ampliada. Como nem sempre e nem todos temos a oportunidade de fazer um período sabático e nos
afastarmos da realidade conhecida para explorar outras realidades possíveis, recomendo uma espécie de “spa sabático doméstico”. Recomendo “uma semana de isenção”, sem assistir televisão, sem ler jornal nem revistas, sem debates sobre os temas do cotidiano. Uma semana fora da mídia, longe das notícias, esvaziado de informações do trivial e do corrente.

Neste tempo “sabático” de uma semana é preciso eleger um tema e formular uma perguntaduvidar é a forma pela qual nosso cérebro aprende, quem só tem certezas não tem nada a aprender. O tema pode ser de qualquer área da vida, mas deve ter profundidade suficiente para nos conduzir a mudanças. Pode ser sobre a qualidade de nossos relacionamentos, pode ser sobre vocação, sobre missão, ou crenças e valores, enfim, um tema que transcenda os espaços mais restritos do cotidiano.

O que faz diferença na qualidade desta semana é a pergunta e nossa interação com o universo ao redor para nos abrirmos para novas respostas. Ao formular uma pergunta devemos levar em conta que as perguntas dos porquês de qualquer coisa apenas nos
explicam como estamos vivendo, mas não são transformadoras em si mesmas. As questões com potencial de nos conduzir através do caminho da transformação são aquelas que nos permitem compreender as prioridades, saber como realizar um processo de mudança ou nos mostram alternativas e caminhos novos para trilhar a vida.

Assim, perguntar-se “por que isto está acontecendo?”, “por que comigo?” ou “por que logo agora?” vai nos oferecer respostas explicativas, porém esvaziadas de energia para outras condutas. As questões mobilizantes são formuladas dentro de parâmetros mais mobilizadores como “qual o próximo passo?”, “quais são as prioridades da vida neste momento?”, “o que preciso aprender agora para realizar determinado propósito?” ou “como realizar tal coisa?”. Essas são perguntas carregadas de significado de mudança e em sua própria formulação já estabelecem a necessidade de mudar.

Contudo, formular a pergunta ainda não é suficiente. Precisamos estar abertos às respostas, obedientes ao processo e sermos suficientemente aventureiros para experimentarmos o novo e desafiador que virá disso. Teste esta proposta, elabore uma pergunta e olhe para as coisas ao seu redor, abra um livro e leia um trecho, leia o outdoor do caminho, abra seu email, veja os sinais da estrada, ouça a fala de um amigo, assista um filme, enfim, abra-se para encontrar a resposta.

Segundo um princípio da neurociência, quando você sabe qual é a pergunta, tudo vira resposta. Desta forma, estamos rodeados de respostas para todas e quaisquer perguntas que tenhamos. Se não tivermos perguntas, estamos o tempo todo perdendo respostas. O tempo de aprender é sempre o agora. Nossos paradigmas são as lentes que utilizamos para olhar a realidade. Esses filtros nos permitem ver de determinada e bem delimitada forma. A lente que usamos para ver a vida é a vida que somos capazes de ver.

Mudar de mundo é realmente mudar de olhar, como nos ensina Roberto Crema, atual reitor da UNIPAZ – Universidade Internacional da Paz. Não vemos as coisas como elas são, vemos as coisas como nós somos. O perímetro que percorremos é aquele que identificamos e só reconhecemos o que já conhecemos, assim ficamos restritos ao conhecido. Essa é a natureza de nossa relação com a realidade. Portanto, nosso desafio é ampliar o conhecimento sobre a realidade para que
possamos reconhecer novos caminhos e identificar outras possibilidades.

Nos afastarmos da mídia por uma semana, para olharmos com mais profundidade, e sem distrações, para uma questão de grande importância em nossa vida é parte de um exercício maior para a plena atenção. Todo o exercício da existência talvez seja só para despertar e aí podermos nos encontrar. O paradoxo é que precisamos mudar para ser quem somos, para deixar de ser quem não somos. Despertemos, portanto.

Dulce Magalhães (1966 – 2017), Ph. D. em Filosofia com foco em Planejamento de Carreira pela Universidade Columbia (USA), Mestre em Comunicação Empresarial pela Universidade de Londres (Inglaterra), Pós Graduada em Marketing pela ESPM-SP, Especialização em Educação de Adultos pelas Universidades de Roma (Itália) e Oxford (Inglaterra), Representante Brasileira no Seminário de Cultura e Comunicação da Unesco – USA.

Colaboração do Instituto Dulce Magalhães: www.dulcemagalhaes.com.br

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Sobre o Autor

Dulce Magalhães
Dulce Magalhães

(In memorian) Ph. D. em Filosofia com foco em Planejamento de Carreira pela Universidade Columbia (USA), Mestre em Comunicação Empresarial pela Universidade de Londres (Inglaterra), Pós Graduada em Marketing pela ESPM-SP, Especialização em Educação de Adultos pelas Universidades de Roma (Itália) e Oxford (Inglaterra), Representante Brasileira no Seminário de Cultura e Comunicação da Unesco – USA.