Sol em Áries e Coronavírus: Cinquenta minutos depois da meia-noite

Astrologia e Coronavirus

Sim, poderia ser um sonho, como canta o profeta Raul (“O dia em que a Terra parou” – sugiro que leiam na internet os textos a respeito da analogia feita entre esta canção e o Coronavírus ou Covid19 nos últimos sete dias).

Mas eu prefiro pensar que este momento social que testemunhamos seja mais um dos pesadelos do menino Conor (“A monster calls”).

O fato é que este Ano Novo Cósmico, este ingresso do Sol em Áries, longe de trazer a pujança da força entusiástica do elemento Fogo, nos apresenta o rigor da tríplice conjunção em Capricórnio acrescida da presença de Marte (dispositor do Sol em Áries) exaltado neste signo (em conjunção partil com Júpiter).

Ou seja, um momento que pede compromisso. Compromisso conosco mesmos antes de qualquer coisa. Antes de tudo.

Somente assim poderemos dar espaço para a autorresponsabilidade, disciplina e maturidade (quatro planetas na casa I do mapa do equinócio e ênfase total no primeiro quadrante do mapa) – não há mais lugar para as vitimizações. Nem tampouco para a procura dos bode expiatórios (um tema predileto e recorrente da sombra capricorniana: “não fui eu”).

Se alguém ainda não entendeu, os tempos chegaram. Nos últimos onze anos, os astrólogos estão perscrutando os céus e os grandes ciclos (que envolvem os planetas coletivos e transpessoais), reconhecendo esta simetria que se manifesta e ressoa através dos coletivos, das atitudes (des) humanas.

É certo – nossa espécie vem se especializando em desequilibrar a delicada urdidura da teia cósmica pelos mais diversos motivos (descaso, cobiça, indiferença, avareza, ignorância, cupidez, egoísmo…), há muitas décadas. Entretanto, nesta última, com o ingresso de Plutão em Capricórnio, estamos tendo de lidar com a grande sombra do coletivo que se expressa através das estruturas e desigualdades sociais. E agora os grandes cronocratores (Júpiter e Saturno) se unem ao senhor das profundezas. Não há para onde fugir.

Como nos lembra Liz Greene, “embora o homem deseje tão desesperadamente acreditar que é livre, não há nada que detestemos mais do que aceitar a responsabilidade por nossas ações e por nosso destino.”

E aqui está o nosso desafio: reconhecer a nossa (ir) responsabilidade ao gerir os recursos planetários e vitais, sejam eles advindos do meio ambiente ou da alma humana.

2020 é um ano decisivo. Seja porque uma Tríplice Conjunção só tenha ocorrido seis vezes ao longo destes dois milênios, seja porque seremos testemunhas oculares da Grande Mutação (Júpiter e Saturno encerram seus duzentos anos transitando em signos do elemento Terra e iniciam seus próximos duzentos anos transitando em signos do elemento Ar – em que pese já tenham dado um trailer disto em 1981).

Assim como o pequeno Conor, teremos de lidar com perdas importantes e necessárias, teremos de reconhecer que a dor e a ausência têm um propósito educacional e que a autoridade interna é forjada através de um processo psíquico onde a restrição e a escassez nos fazem reconhecer o valor raro daquilo que antes nos era ordinário (e, por isso mesmo, aparentemente comum ou sem valor).

Afinal de contas, mesmo nos considerando homo sapiens sapiens, ainda somos mamíferos em busca de segurança, pertencimento, vínculo, contato e afeto. E como iniciamos este novo ano? Isolados e emocionalmente vulneráveis. Confinados em nossas cavernas domésticas e tecnológicas (ou totalmente destituídas de conforto básico – os dois lados possíveis de uma Lua em Aquário), proibidos de expressarmos afeto de uma forma física – sugere-se que não nos abracemos e menos ainda que nos beijemos – para (em nome da responsabilidade social) não sermos os agentes contaminadores de um vírus que está desestabilizando países inteiros (quer algo mais literal para esta Lua em Aquário em quadratura com a Vênus em Touro ?)

Muitos de nós não reconhecem que esta realidade que se impôs de uma forma dura, dolorosa, dramática… foi cocriada por cada um que compartilha este espaço-tempo. O mundo à nossa volta (e a realidade de cada indivíduo) nada mais é do que a criação gerada por nossas ideologias, visões de mundo, crenças, paradigmas, valores e, principalmente, pelas nossas ações (e omissões). Nada mais cardinal. Nada mais Marte em Capricórnio do que isto.

O que poucos conseguem reconhecer é que a Vida nos responde com grande ressonância e que o poder criativo das nossas psiques atrai, misteriosamente, as experiências que traduzem o que está vibrando nos nossos cenários interiores.

“Histórias são criaturas selvagens” diz a árvore-monstro para Conor.

2020 está nos convidando para ouvir as terríveis histórias que o coletivo nos conta. Histórias onde a nossa identidade, autonomia, autoestima e autoconfiança foram feridas, foram negadas, foram violadas (Sol e Quíron em Áries na casa III (comunicação) e IV (família, ancestralidade, pátria). Vale lembrar que a escuta é tão ou mais importante do que a fala no processo de uma verdadeira comunicação… e ao ouvi-las, e reconhecê-las, talvez possamos perder o medo, a vergonha e a culpa que carregamos secretamente e também contar (e assumir para nós mesmos) qual é a nossa história (o nosso pesadelo, o desejo mais secreto). Pois esta história também contribui para aumentar a sombra coletiva. E, ao assumi-la, esta escuridão diminui.

Paradoxalmente, há um aprendizado crucial que se apresenta a cada um de nós através destas circunstâncias: o isolamento, a ausência e as perdas podem nos levar à reavaliação do que é essencial. O colapso destas estruturas nas quais nascemos, fomos criados e aprendemos a acreditar que seriam eternas (pois davam sentido e significado sociais ao que vivíamos) é eminente. Estamos testemunhando o crepúsculo de uma era.

Depois de Marte e Júpiter, que estão envolvidos nesta grande conjunção e que expandem e acirram o lado mais individualista, é Netuno em Peixes, na casa III, o planeta que mais recebe aspectos positivos. Com isto, estamos aprendendo que as fronteiras nascem mesmo é na mente das pessoas, que a separatividade é uma grande ilusão e que a empatia e a solidariedade podem promover uma maior consciência, plenitude e liberdade se formos corajosos o suficiente para sairmos de dentro de nós mesmos, das prisões que construímos com nossas ideias equivocadas e crenças autolimitantes.

Com toda esta ênfase capricorniana (e Saturno está no grau 29, um grau crítico, de desafios psicológicos), é necessário ir além daquilo que os seus olhos pensam estar enxergando. Como todo símbolo que se preze, ele é dual e contraditório. Complexo como os humanos costumam ser.

Não é por acaso que Janus bifronte presidia as calendas de janeiro no calendário romano… prepare-se para ser surpreendido por aquilo que ainda vai se revelar ao longo do ano. E confie que está sendo preparado, igualmente, para viver tudo o que se apresentar. O que a Vida espera de nós é que cada um tenha a coragem de ser quem é. E, a partir disto, agir. E fazer a diferença.

(O mapa do equinócio para Porto Alegre: 20 de março de 2020. Às 00:50)

Lúcia D. Torres é astróloga, educadora e terapeuta. Profa. Mestra em Literatura pela UFRGS.

 

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Sobre o Autor

Lúcia D. Torres
Lúcia D. Torres

Astróloga, educadora e terapeuta. Professora Mestra em Literatura pela UFRGS.

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