Carregando...
Autor Convidado

ANO BUDA 2585 ANO CRISTÃO 2019 – Por Monja Coen

monja-coen

No início de todos os anos os templos japoneses ficam muito atarefados.
Monges e monjas se deslocam para auxiliar nos templos uns dos outros a fim de realizar a Cerimônia de Dai Hannya – Grande Sabedoria.
Iniciamos invocando a Grande Sabedoria Perfeita, Sabedoria que liberta as pessoas das amarras e aflições impostas pela falsa percepção de que estamos separados uns dos outros e da verdade.

A Grande Sabedoria aponta para o uno, o não dual. Neste grande Uno até mesmo o dual está incluso. No dual o uno não cabe. Está dividido em dois, separado por uma cerca invisível e poderosa. Algumas vezes se biparte e reparte em mais do que duas partes, pode chegar a dezenas, centenas, milhares, milhões, bilhões, trilhões de partes.
Como um caleidoscópio, que manifesta grande multiplicidade de cores e formatos ao ser girado e continua sendo um único caleidoscópio, nós, seres humanos, podemos apresentar grande multiplicidade de facetas, cores, etnias, aspirações, posicionamentos filosóficos, políticos, econômicos, educacionais, religiosos, mas continuamos sendo todos uma só família – a família humana.
O Uno, que chamamos de Natureza Buda, inclui todos os seres. Da menor partícula ao grande multi pluri cosmos.
Tudo que existe.
Sem exclusão. Sem escolher, sem preferências, sem apegos e sem aversões. Aqui todas as cores e todas as formas se alternam no incessante movimento de vir a ser e deixar de ser.
Nascer-morrer é transcendido. A Natureza Buda é não nascida e não morta. Está presente em cada instante e em toda parte. Algumas pessoas conseguem percebê-la.

Zazen é o portal principal para adentrarmos à Grande Sabedoria Perfeita.
Zazen não é sentar e sonhar.
Zazen não é cura para depressão.
Zazen não é anestesia para as dores da vida-morte.
Zazen é o encontro do eu com o Eu. A transcendência na imanência.
Sem deixar seu corpo-mente individual adentre a grande mente de Budas Ancestrais. Sem separação, na grande unidade, perceba, acolha e transmute sua visão.
Movimento puro, transformação incessante.
Querendo pegar, escapa de suas mãos. Corre mais rápido que o vento, mais veloz que as carruagens dos reis das rodas giratórias celestiais. Como alcançar o inalcançável?

Sentamo-nos em silêncio. A quietude e o movimento já não lutam, mas ocupam seus lugres, como as pausas e as notas em uma partitura musical. Como poderia existir uma sem a outra? Como seria um texto sem pontos e sem vírgulas?
Sem parágrafos e sem pausas?
Observar as pausas.
Penetrar o grande silêncio. Tornar-se o Uno manifesto.

Janeiro é mês de preces, de liturgias especiais, de invocação do Dai Hannya:
“Que toda a dualidade, dúvida, seja afastada.”
Monges gritam nas salas de preces, expulsando os demônios.
Budas são invocados. Os templos ficam lotados de fiéis e os livros sagrados são revolvidos de um lado para outro de forma que o vento dos ensinamentos se espalhe por toda a sala. Os grandes tambores japoneses – taikos – ressoam. As preces são feitas com grande rapidez, velocidade e força. É preciso treinar o corpo e a mente. A língua deve ser hábil a pronunciar cada sílaba com precisão. Sem pular uma só sílaba, sem apressar e sem atrasar o grupo.

Nos Grandes Mosteiros Sede de Eiheiji, em Fukui e de Sojiji, em Yokohama, centenas de monásticos entoam o Sutra do Coração da Grande Sabedoria Perfeita – Maha Prajna Paramita Hdrya Sutra – Maka Hannya Haramita Shingyo.
Incenso forma uma nuvem e todos são envolvidos por essa nuvem de pureza, de preceitos, de homenagem aos Budas do Presente, Passado e Futuro.

Budas são seres que vivem Prajna Paramita – a Sabedoria Perfeita. Seres sábios, seres que despertaram para a verdade da realidade última. São pessoas, seres humanos, que colocam em prática, na vida diária, a sabedoria além do saber e não saber.

Sem apegos e sem aversões, o Caminho é fácil – conclama um texto clássico antigo.

Como perceber apegos e aversões? Como se libertar da rede de samsara?

Orar, invocar Budas, queimar incenso, fazer reverências – são todas práticas muito boas, entretanto nenhuma delas é suficiente se a pessoa não praticar o Caminho dos Budas Ancestrais, se não se tornar um ser iluminado, um ser desperto.

Desperte a mente bodai – a mente à procura da iluminação perfeita, a mente que lê, estuda, pratica, experiencía e acorda – percebe, reconhece estar interligada, inter-relacionada a tudo e a todos.

Em cada gesto, em cada expressão facial, corporal, verbal, em cada movimento de seu corpo e de sua mente, a manifestação de toda a vida do pluri verso.

Sorria.
Você é a vida, é o movimento.

O que faz, fala e pensa altera a trama, a teia da existência.

Escolha palavras corretas e amáveis, pensamentos de acolhida e respeito, gestos gentis e suaves. Pronto. Eis que a mente desperta sorri e aprecia o momento.
Deixe de lado as reclamações e os preconceitos. Acolha a vida em sua pluralidade. Chore e sorria, comova-se e se maravilhe a cada instante, sem jamais desistir de si e de outros seres: todos podem e devem despertar.

Gate, gate, paragate, parasamgate, bodhi svaha, Hannya Shingyo

Indo, indo, tendo ido, tendo chegado, honra à mente Bodai e ao Sutra Coração da Sabedoria.

Gassho (mãos em prece)

Monja Coen