Anamnese Essencial – Por Jean Yves Leloup

Traduzido por Luciana Volkmann Padoan

“A anamnese que geralmente é traduzida como lembrança ou rememoração é uma prática encontrada em diferentes áreas:

– Na medicina, é uma questão de se traçar a história de uma doença, os antecedentes traumáticos ou medicais, o histórico que poderia levar à dor manifestada pelo paciente, os resultados das várias explorações já feitas e os tratamentos realizados.
– Em psicologia ou psicanálise, é a própria história do sujeito, o assunto sendo considerado como a soma dessa história, de seus traumas, seus sintomas e sua resolução aleatória inacabada.
– Na liturgia cristã, trata-se do momento em que nos lembramos da paixão, morte e ressurreição de Cristo e de Sua presença real e viva, “conosco até o fim do mundo” para através dos gestos da “comunhão” do pão e do vinho, corpo e sangue, compartilhados.

Antes de falar sobre a anamnese essencial segundo os Terapeutas de Alexandria, é importante relembrar que Freud em “Moisés e o Monoteísmo”, define o inconsciente como uma memória:

“Tudo o que uma criança de dois anos já viu sem compreender nunca poderá voltar à sua memória, exceto em seus sonhos. Somente o tratamento analítico poderá torná-lo consciente desses eventos. Mas em algum ponto, estes […] podem surgir na vida do sujeito, ditar suas ações, determinar simpatias ou antipatias e muitas vezes determinar suas escolhas amorosas […]. O afastamento no tempo é aqui o fator essencial em relação a esse estado especial de memória que chamamos de “inconsciente[1]”.

Para os Terapeutas de Alexandria, a anamnese essencial é a rememoração constante através da consciência, respiração, invocação da presença do Infinito (Amor Vida- consciência).

Esta Presença não é a presença de alguém ou de algo, mas sim da presença original de todo ser, sujeito ou objeto; esta presença do Infinito pode assim ser chamada “presença de Deus”.

Para Fílon de Alexandria e para os antigos Terapeutas, Deus é “mais que um Ser”, melhor do que o Bem, acima da Unidade, acima de tudo. Deus é “nada”, “não é uma coisa”, “o ser não é um Ser”, mas é o espaço, a clareza, é aquilo que reside entre nós, entre tudo, o Nada, o “aquilo que não é algo” do qual nascem todas as coisas.

Existe em todos nós , em todo ser, um espaço, uma liberdade, um silêncio a se preservar. É aquilo que possuímos de mais precioso, talvez também aquilo que exista de mais frágil no universo. “Devemos cuidar de Deus para que ele não morra”, dizia Etty Hillesum.

O terapeuta, segundo Fílon de Alexandria, está ao serviço desta visão. Em primeiro lugar, ele se ocupa em despertar o nosso olhar interior, sendo capaz de ver “o que é” dentro do “aquilo que acontece”. Ele nos traz de volta do existencial ao essencial, esse essencial que não constitui uma essência abstrata ou um “mundo secundário”, mas a Vida de nossa vida, o Sopro de nosso sopro, a Consciência de nossa consciência, o Ser do nosso ser – ali encontra-se a “soteria”, a qual traduzimos por “saúde” ou ainda por “saudável”, a “Plena Saúde”.

Nas tradições orientais, diz-se que a “avidya”, a ignorância, é a fonte de todos os males, tanto físicos quanto psíquicos e cósmicos. “Avidya” significa exatamente mesma coisa que “athéos”, ou ausência de visão. A ignorância não é apenas falta de conhecimento mas desconhecimento de si do Eu, esquecimento do Ser (“brahman”) que nos faz existir. Não se trata então apenas da saúde ou da salvação, quando por reconhecimento reencontramos nossa intimidade com o Eu, com o real infinito, falamos de Despertar, de deixar a ignorância que causa nossa infelicidade, ou seja de nossa identificação de nossa “existência e mortalidade”, ser e mortalidade que não se trata de negar, visto que esta mesma é uma manifestação do Ser não criado, não nascido. Fazer atenção a esta verdade, é cessar de idolatrar ou de desprezá-la e lhe render a sua transparência, seu caráter ontofânico ou teofânico.

Quando os antigos terapeutas ou sábios da Índia falavam de ateus e de ignorantes, não era para julga-los ou condená-los, mas para convidá-los a ir mais longe, a dar um passo “mais adiante”, um passo além de suas representações deles mesmos e do mundo, um passo além das imagens e dos sintomas dentro dos quais estes se sentiam bloqueados. Evidentemente, os Terapeutas nada podem por aqueles que se queixam dentro de sua ignorância ou que fazem desta ignorância a razão de ser do homem sem querer deixá-la por preço algum, a consciência da absurdez de suas vidas parecendo-lhes como a mais e o maior reconhecimento.

“Reconhecimento de que se está doente, é a metade da cura” diz-se: reconhecer que não vemos, é o começo da visão, reconhecer seu ateísmo, no sentido etimológico, pode ser o primeiro passo na direção de Deus. Saber que nada sabemos, é o principio da sabedoria. Pode ser também o seu fim, mas não se deve confundir ignorância estúpida e “docte ignorância”; o silêncio daquele que não tem nada a dizer não sendo o mesmo daquele que pensa ter suficientemente falado e que pode deste modo calar-se. Deveria-se distinguir o ateísmo da ignorância, que não crê em Deus, e o ateísmo do místico, que crê não em “um” Deus, mas que adere a este “Deus acima dos deuses”, do qual falam Filon de Alexandria e seus sucessores…

Reencontramos esta prática da anamnese entre os Terapeutas de Todtmoos-Rütte, inspirados por Graf Dürckheim e Maria Hippius, naquilo que eles chamaram de “psicoterapia iniciática”.

No princípio da anamnese empregada neste tipo de terapia, não se trata de se relembrar apenas dos traumas, dos problemas ou das memórias de nossa pequena infância ou de nossa vida adulta, trata-se de se relembrar dos momentos “numinosos”, nem sempre luminosos, nos quais fomos tocados, por uma outra dimensão, uma outra consciência, todo um outro Amor.

Rememorar-se das horas estreladas de nossa existência não diminui a profundidade de nossa noite, mas nos lembra que a luz existe; podemos nos engajar nos diferentes túneis da nossa existência porque já sabemos, nós já experimentamos isso nestes momentos de abertura em nós para “algo maior que nós”, sabemos que o resultado não é uma ilusão, um sonho vago. Aqui não é o caso de recordar as ocasiões em que a Presença do Ser ou da “Abertura” pode aparecer em nossas vidas. É simplesmente uma questão de recordar a primazia do espiritual no exercício da terapia para esses antigos terapeutas. Trata-se de cuidar primeiro de “o que está bem” em alguém que vai mal, de olhar para ele reconhecendo onde há saúde antes da doença, porque é a partir do que é saudável que a cura pode acontecer.

Cuidar de Deus em um ser humano é reconhecer sua parcela de liberdade, que permanece livre nele em relação à sua doença. Ele “não é” um câncer, ele “tem” um câncer, uma prova do qual ele pode fazer uma “oportunidade” (kairos) de crescimento ou descoberta de dimensões de si mesmo desconhecidas até então. O que não o poupa do sofrimento, mas pode dar-lhe significado, sendo o pior sofrimento aquele ao qual não podemos atribuir um sentido. A logoterapia de Viktor E. Frankl nos lembra hoje que, segundo Philon, é o Logos que dá sentido a toda a vida e experiência.

Cuidar da presença do Ser infinito em um ser humano finito e mortal é mantê-lo Aberto, e isso na sua totalidade: no corpo, na psique e no intelecto. Isso pressupõe uma antropologia quaternária e não-dualista que é aquela dos antigos terapeutas e que pode ser a dos terapeutas de hoje. Soma, psique, mente (Noùs), instruídos, animados pelo pneuma; corpo, alma, espírito, instruídos e animados pelo Espírito:

– A saúde do corpo é a sua transparência ou sua transfiguração pela presença do Santo Sopro (Pneuma).

– A saúde do psiquismo (Psique) é a abertura do coração pela generosidade, à compaixão e ao amor infinitos.

– A saúde da mente (Noùs) é o despertar e a humildade da inteligência aberta àquilo que a transcende; é “a Grande Saúde” (Soteria) que os Terapeutas do deserto seguindo Filon chamarão de teosis ou divinização.

A dor, a dor de viver, a morte ainda estão lá, mas elas são “vistas” à luz do Ser e do Espírito, como “oportunidades” (kairos) e “passagens” para essa “escuridão” e este silêncio luminoso[2] “, Presença essencial que é a nossa verdadeira natureza, aberta ao que os antigos terapeutas chamavam, com admiração de o “Ôn – O Theos”.

Além disso, a etimologia da palavra “anamnesis” é interessante: ana em grego indica um movimento de memória (mnesis) de baixo para cima (ana).

Encontramos esse mesmo movimento na palavra aná-lise, soltar, dissolver (lise) para cima (ana).  Nesse caso, a psicanálise seria uma espécie de desvinculação para cima, libertação de nossas memórias para cima.

Uma palavra menos conhecida nos círculos medicais mas que continua a ser fundamental na tradição cristã, é a palavra “Anastasis”, que é geralmente traduzida como “ressurreição”, e que significa literalmente “colocar – recolocar (stasis) para o alto.” O que significa “para cima” ou “na altura”?

A que experiência este símbolo espacial pode nos levar? “Para cima” evoca verticalidade, um topo e, é claro, o céu, o espaço, a “vastidão”, o mais elevado refere-se tanto à fronteira quanto algo fora do alcance.

O Altíssimo ou o baixíssimo, é sempre aquilo que nos escapa, foge à nossa adesao ou possessão (alcance e compreensão), o fora de alcance: o evasivo, o infinitamente pequeno ou infinitamente grande: o infinito.

Assim, a anamnese em seu sentido literal ou essencial seria uma memória ou uma relembrança do inatingível, que “sobe” do inconsciente em direção à consciência, do oculto à mais pura e simples evidência: a presença do infinito dentro do ser finito que somos, a presença do Infinito se manifestando nos momentos numinosos de nossa historia, essas experiências pontuais que tanto nos fascinam (porque há um pressentimento do Real) como nos assustam (porque há um questionamento daquilo que geralmente tomamos como realidade[3]).

A anamnese essencial é o despertar da consciência finita para a consciência infinita que a informa. É a Fonte que volta para a beira do poço. A prática da meditação, invocação, a respiração e outros meios de suporte para a rememoração – constituem a corda e o balde através dos quais “levantamos” a água da fonte, na ocasião em que esta cessou a jorrar na superfície.

“A verdade está no fundo do poço” esquecida, enterrada.

A prática é o que desobstrui o mental (o poço) de todas as memórias ou pensamentos que impedem o acesso à presença viva da verdade reconhecida como fonte de vida, luz e dom.

Não é a felicidade que procuramos, mas a essência da felicidade. A felicidade é perecível e esta é a sua desgraça. Alegria sem justificativa e sofrimento sem consolo nos aproximam dessa essência que não deve nada ao tempo presente ou anterior.

Como ser sensível ao que não se sente? Permanecer atento ao elusivo? Não separar nada de seu fundo e de sua superfície invisível? Este é o propósito e a prática da anamnese essencial.

Tocar o silêncio evidente que existe antes de qualquer pensamento de felicidade ou infelicidade, antes de qualquer afirmação de significado ou absurdo sobre a nossa existência.

Este silêncio é acima de toda imagem ou representação de Deus.

Este silêncio que nos salva e nos julga antes que seja evocada toda noção de julgamento ou salvação. Tocar este impalpável espaço onde nossas inspirações e expirações são fomentadas e saciadas, relembrar-se da essência insubstancial que somos, nossa liberdade que está acima de tudo e de toda libertação. Luz insubstancial, insubmissa, evidência tranquila e salvadora, ali, na frente, atrás, entre … nossos olhos.

Jean Yves Leloup é PhD em Psicologia, co-fundador da UNIPAZ, filósofo, teólogo, padre e escritor.

[1] Sigmund Freud, Moisés e o Monoteísmo, Gallimard, 1948, p. 169-170.
[2] Cf. A Teologia Mística de Dionísio, o Areopagita: um Obscuro e Luminoso Silêncio.
Sao Paulo, Editora Vozes, 2014, 1° edição.
[3] Autor: Jean-Yves Leloup. Editora: Vozes. Ano: 2001 (1a edição). Descrição. “Carência & Plenitude”.

Tags: | | |

INSIGHTS DO UNIVERSO

RECEBA GRATUITAMENTE CONTEÚDOS EXCLUSIVOS

Seu e-mail está 100% seguro!

Sobre o Autor

Jean Yves Leloup
Jean Yves Leloup

PhD em Psicologia, co-fundador da UNIPAZ, filósofo, teólogo, padre e escritor.