A irresistível Necessidade de Acreditar – Por Marcelo Gleiser

Ao discutirmos a complexa relação entre ciência e religião, com frequência nos deparamos com posições polarizadas: ou se afirma “acredito” ou se afirma “não acredito”, com convicção semelhante em ambos os casos. Com frequência ainda maior, se perguntarmos no quê, exatamente, se acredita, ou de onde vem a necessidade individual dessa fé, nos deparamos com respostas vagas, que incluem “tradição”, “comunidade”, “mortalidade”, passando pelos que, de fato, têm sua fé examinada, questionada e reavaliada regularmente. Nossas convicções mudam com a idade e, com essas mudanças, muda, também, nossa relação com a fé.

Nessa polarização milenar, muita animosidade desnecessária vem da convicção infundada de que os que têm opinião diferente da nossa em relação à fé, ou os que acreditam de forma diferente, estão profundamente equivocados, ou são simplesmente tolos ou, pior, são infiéis que não merecem viver. Deixando de lado a óbvia radicalização dos muçulmanos de organizações terroristas como ISIS ou Al-Qaeda, um exemplo mais ameno mas não menos sintomático do radicalismo entre ateus e cristãos vem ocorrendo nos debates presidenciais americanos, onde os ateus são considerados os candidatos menos elegíveis. É impensável ter um presidente ateu nos Estados Unidos. 

Na realidade, existe todo um espectro de modalidades da fé humana, que ocupam um rico espaço entre o radicalismo dos dois polos. Por exemplo, Francis Collins, diretor do Instituto Nacional da Saúde nos EUA—o órgão governamental que administra o maior numero de bolsas de pesquisa nas áreas da medicina e da biologia—não vê qualquer conflito entre ser cristão e ser cientista. Como ele, muitos cientistas veem a prática científica como mais um meio de admirar a obra divina, como uma forma de devoção religiosa. Essa é uma tradição antiga, que inclui, por exemplo, alguns dos patriarcas da ciência moderna, como Copérnico, Newton, Kepler e Descartes. A ruptura veio mais tarde, com o Iluminismo do século XVIII.

Para ateus conhecidos do público, como Richard Dawkins, Sam Harris e o falecido Christopher Hitchens, esse tipo de posição intermediária é inconsistente com os fundamentos da ciência: a Natureza é material, e a matéria é organizada segundo leis quantitativas. O objetivo da ciência é descobrir essas leis; não existe espaço para mais nada.

Segundo eles, essa posição metafísica conciliatória cria uma série de problemas filosóficos. Embora atraente, ela força a coexistência incompatível do natural com o sobrenatural. Como que a Natureza pode ser tanto natural quanto sobrenatural? Por definição, chamar um evento que ocorre e é percebido por alguém como sendo um “fenômeno sobrenatural” cria uma inconsistência básica: para que o fenômeno tenha sido observado, teve que emitir algum tipo de radiação eletromagnética (luz visível, radiação infravermelha etc.), que foi detectada por algum observador ou aparelho. “Eu vi um fantasma!” Em outras palavras, para um fenômeno ser detectado, tem que trocar energia com quem (ou com o que) o observa. Um fenômeno chamado de sobrenatural, uma vez observado, é perfeitamente natural, mesmo se misterioso ou aparentemente inexplicável. Um fantasma que é visto não é mais uma entidade sobrenatural.

Alguns adotam a posição que o biólogo americano Stephen Jay Gould chamou de NOMA (do inglês “Non-overlapping magisteria”, magistrados que não se superpõem), e compartimentalizam a ciência e a religião dentro de esferas limitadas de influência, afirmando algo como “a religião começa onde a ciência termina”. Apesar de cômoda, essa posição não vai muito longe. À medida em que a ciência avança, a fronteira entre os dois magistrados vai migrando, refletindo a posição conhecida como “Deus dos Vãos”, a religião tapando os buracos da nossa ignorância científica. Por outro lado, afirmar categoricamente que o sobrenatural tem uma existência intangível e imensurável, posiciona sua natureza além do discurso científico, anulando qualquer possibilidade de uma troca construtiva de ideias. 

O fato é que a ciência e a religião claramente se superpõem na cabeça das pessoas, nas escolhas que fazemos na vida, nos desafios morais que a sociedade moderna enfrenta. É terrivelmente inocente negar o poder da religião no mundo, com bilhões de pessoas declarando-se seguidores de algum tipo de fé, mesmo que muitos deles definam sua fé de forma vaga. 

Além disso, a posição dos ateus radicais também é inconsistente com os parâmetros do método cientifico, algo que talvez surpreenda muita gente. Basta ver que o ateísmo é a crença na não-crença, já que a possibilidade da existência de qualquer tipo de divindade é negada categoricamente. A ciência não pode negar a existência de algo categoricamente, apenas após observações absolutamente conclusivas. E como podemos ter certeza do que ainda não medimos? A posição mais consistente com o método científico é a do agnóstico, como haviam já percebido Thomas Huxley e Bertrand Russell, dentre muitos outros: não vejo qualquer razão para crer, mas baseado no que sei não posso negar absolutamente a possibilidade de que alguma entidade divina exista. Como escreveu Huxley, criador do termo “agnóstico”: “é errôneo afirmar que se tem certeza da verdade objetiva de uma proposição, a menos que seja fornecida evidência que justifique logicamente esta certeza”.

Em vista da diversidade de posições, a questão essencial é a origem dessa necessidade de se acreditar que identificamos na maioria absoluta das culturas do passado e do presente. O que a crença oferece que tantos precisam?

Pertencer a um grupo religioso confere um senso de comunidade imediato. Ao encontrar outros membros de sua comunidade na igreja ou templo, a pessoa vê sua crença justificada, dado que é compartilhada por tantos outros. Mais do que a crença em si, a pessoa se vê integrada num grupo com valores afins. Isso é tanto verdade para as pessoas de fé quanto para aquelas seculares, sejam elas ateias ou agnósticas. Seres humanos são criaturas tribais, e tribos definem-se a partir de certos símbolos, mitos ou código moral. Não há dúvida de que nossos ancestrais entenderam que existe uma enorme vantagem em pertencer a um grupo. Fazer parte de uma tribo oferecia uma proteção que aumentava as chances de sobrevivência num ambiente extremamente hostil: unidos venceremos. Tanto no passado quanto no presente, fazer parte duma tribo confere legitimidade social imediata. Para muita gente, a fé pode ser a justificativa oferecida para se participar de um grupo religioso, mas é o senso de comunidade, de valores divididos pelo grupo, que está por trás da devoção.

Existe, no entanto, um outro aspecto da fé, bem mais subjetivo do que tribal. Como descreveu o psicólogo americano William James em sua obra prima As Variedades da Experiência Religiosa, a experiência religiosa atinge seu clímax na subjetividade da experiência individual, na comunhão da pessoa com o desconhecido, na percepção de transcendência dos limites da existência humana, delineada pelas barreiras do espaço e do tempo. As visões e revelações dos profetas e dos santos, a experiência emocional do divino ocorre no indivíduo, mesmo quando induzida pelo grupo (por exemplo, através de rituais). Existe muito mais no mundo do que o que percebemos ou podemos medir, e essas características “ocultas” são igualmente importantes na nossa construção do que definimos como realidade.

Como escreveu James, “toda a sua vida subconsciente, seus impulsos, suas crenças, suas necessidades, são a premissa da sua existência consciente; existe algo dentro de você que sabe de forma absoluta que o resultado disso tudo deve ser mais verdadeiro do que qualquer tipo de argumento lógico, por mais articulado que seja, que tente contradizer essas convicções subconscientes”.

Mesmo que o filósofo George Santayana e outros tenham criticado James por “encorajar a superstição”, ninguém pode negar o fato de que a razão tem alcance limitado. A ciência, se vista como expressão da razão humana, espalha-se por todos os cantos do conhecimento de forma magnífica, mas seu alcance não é ilimitado. Existe uma outra dimensão da fé, separada dos rituais tribais, da religião organizada, que dá expressão à uma necessidade primária que temos de comunhão com o desconhecido. Esse é o aspecto mais universal da necessidade humana em crer, que transcende as divisões arbitrárias da fé criadas no decorrer da história; as religiões, as tradições, os cultos, as tribos e suas regras. Não existe aqui qualquer menção a uma supersticiosidade irracional ou mística. O que identificamos é a necessidade individual da crença, expressa por cada um de forma variada.

Quando Einstein menciona sua “emoção religiosa cósmica” para descrever sua conexão espiritual com a Natureza, está tentando expressar precisamente essa atração humana pelo mistério, pelo desconhecido. “Espiritual” não implica a crença numa dimensão não material. O que pode surpreender a muitos—especialmente aos que veem cientistas através do estereotipo do racionalista frio—é que essa atração pelo mistério, em essência uma atração espiritual pela Natureza, inspira o cientista em seu trabalho. Não é Deus que se busca no questionamento científico, mas a transcendência do humano, a busca por uma dimensão além do cotidiano que dá sentido à nossa busca por sentido.

Mesmo o cientista secular, quando estende sua curiosidade ao oceano do desconhecido, está praticando essa crença, expressando a necessidade que temos de conhecer nossa história e de explorar o novo, estendendo nossa visão da realidade.

Marcelo Gleiser é professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, EUA. Vencedor do Prêmio Templeton 2019, considerado o Nobel da espiritualidade. Seu livro mais recente é O Caldeirão Azul.

Foto: Eli Burakian

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Sobre o Autor

Marcelo Gleiser
Marcelo Gleiser

Professor titular de física, astronomia e filosofia natural no Dartmouth College, EUA. Vencedor do Prêmio Templeton 2019, considerado o Nobel da espiritualidade.

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