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Psicologia Transpessoal

Física Quântica e Meditação

Para facilitar a integração entre ciência e espiritualidade, Flavio Depaoli apresentou a história da ciência, chegando as respostas atuais da Física Quântica aos paradoxos que foram surgindo nesta evolução linear do tempo e sua relação com o Sagrado e a meditação.

A história começa na Grécia no século VI a.C., com a Escola de Mileto, onde filosofia, ciência e religião não estavam separados. Heráclito de Efeso acreditava em um mundo em eterna mudança, um “eterno vir a ser” e via os pares de opostos como uma unidade que contem e transcende todas as forças opostas. A divisão dessa unidade deu-se a partir da escola eleática na qual havia um Princípio Divino posicionado acima de todos os deuses e de todos os homens. Esse princípio passou a ser encarado como um Deus pessoal e inteligente, situado acima do mundo e dirigindo-o.

Dessa forma, originou-se um pensamento que separava espírito e matéria, gerando o dualismo que se tornou a marca da filosofia ocidental. Acompanhado do nascimento da ciência moderna de Galileu, a formulação extrema do dualismo espírito/matéria teve origem no século XVII, através da filosofia de René Descartes, para quem a visão da natureza derivava de uma visão fundamental em dois reinos separados e independentes: o da mente e o da matéria. A divisão “cartesiana” permitiu aos cientistas tratar a matéria como algo morto e apartado de si mesmos. Essa visão mecanicista foi sustentada por Isaac Newton, tornando-a o alicerce da Física clássica. Esse modelo caminhava paralelamente com a imagem de um Deus monárquico que, das alturas governava o mundo, impondo-lhe a lei divina. Afirma Capra:

“A filosofia de Descartes não se mostrou importante apenas em termos do desenvolvimento da Física clássica, ela exerce, até hoje, uma tremenda influência sobre o modo de pensar ocidental. A famosa frase cartesiana Cogito ergo sum (“penso, logo existo”) tem levado o homem ocidental a igualar sua identidade apenas à sua mente, em vez de igualá-la a todo o seu organismo. Em consequência da divisão cartesiana, indivíduos, na sua maioria, têm consciência de si mesmos como egos isolados existindo “dentro” de seus corpos. (…) “A crença de que todos estes fragmentos – em nós mesmos, em nosso ambiente e em nossa sociedade – são efetivamente isolados pode ser encarada como a razão essencial para a atual série de crises sociais, ecológicas e culturais. “  (1975, O Tao da Física)

Embora a fragmentação possa ser vista como a razão essencial para as atuais crises sociais, ecológicas e culturais, é importante ressaltar que a fragmentação é um aspecto natural da evolução humana na dimensão dual em que vivemos cuja evolução é fruto justamente da experiência entre as polaridades complementares. Vale lembrar que este período de fragmentação foi positivo em vários aspectos da história, além de ela própria nos direcionar de volta a ideia da Unidade, conforme ressalta Capra:

“A divisão cartesiana e a visão de mundo mecanicista têm, pois, apresentado pontos positivos e negativos. Por um lado, mostraram-se extremamente bem sucedidas em termos do desenvolvimento da Física clássica e da tecnologia, por outro, tem apresentado inúmeras consequências adversas para nossa civilização. É fascinante observar a forma pela qual a ciência do século XX, que se originou da divisão cartesiana e da visão mecanicista do mundo (e que, realmente, se tornou possível graças a essa visão), agora supera essa fragmentação e nos leva de volta à ideia da unidade expressa na Grécia antiga e nas filosofias orientais.” (1975, O Tao da Física).

A Física Quântica é parte importante da superação desta fragmentação para a qual caminhamos e surgiu como consequência de resultados inquietantes a partir de experimentos precisos, como o da “fenda dupla”, no qual se descobriu que a matéria hora se comporta como partícula, com posição e trajetória bem definidos no espaço; hora se comporta como onda, com frequência e habilidade de desviar obstáculos. A partir desta experiência, Bohr propõe o Princípio da Complementariedade, no qual a natureza de onda e partícula do elétron não são dualísticas, nem simplesmente polaridades opostas, mas propriedades complementares:

“As naturezas de onda e de partícula do elétron não são dualísticas nem, simplesmente, polaridades opostas, são propriedades complementares que nos são reveladas em experimentos complementares”. (BOHR, 1995)

São muitas as contribuições da Física Quântica. Entre elas podemos citar a quebra do determinismo, nos levando ao princípio da incerteza; a noção de não-linearidade por meio da descoberta da descontinuidade dos saltos quânticos; o princípio da complementaridade entre observador e objeto, que simplesmente desconstruiu a ciência na qual se acreditava até hoje, visto que a experiência é uma extensão da mente dos cientistas; e especialmente as infinitas possibilidades da realidade a partir do Observador.  O Principio da Complementaridade, por exemplo, traz o fato de que não encontraremos uma visão única da realidade, mas perceberemos infinitas visões complementares. Ao mudar o referencial interno, o mundo muda, os “objetos” e suas propriedades mudam. As propriedades, portanto, não são dos objetos, mas da forma como olhamos, quais estruturas mentais usamos.

“Objetos não são coisas determinadas, mas possibilidades.”(GOSWAMI, 2008)

Além disto, a mecânica quântica mostra que o foco também determina a realidade e ajuda a compreender que não há um mundo externo pronto e independente de quem o experiencia.

“O que a matriz ou luz dos nossos olhos projeta sobre as formas contém uma predisposição inconsciente no sentido de controlar os fenômenos, de impor-lhes o seu próprio ritmo e dimensões “ (SAMTEN, 2010)

Para compreender a Física Quântica é preciso ir além do intelecto, tal qual a meditação, precisa ser experienciada. Há diversos conceitos possíveis para o que é a meditação, assim como há vários aspectos desta prática que se relacionam com a Física Quântica.

Alguns exemplos seriam o processo de auto-observação, a consciência e familiarização com as próprias estruturas mentais através das quais projetamos a realidade que enxergamos, e a partir da observação, a possibilidade de escolher as estruturas mentais e transformar a própria realidade, a estabilidade da mente e a liberdade de escolha pela não-reação frente a determinados estímulos, e principalmente, a experiência direta da realidade, a ciência em primeira pessoa, que nos leva ao sentido do Sagrado que permeia a tudo e ao todo. De acordo com Capra:

“No nível atômico, os objetos materiais sólidos da física clássica dissolvem-se em padrões de probabilidades, esses padrões não representam probabilidades de coisas, mas sim, probabilidades de interconexões. A teoria quântica força-nos a encarar o universo não sob a forma de uma coleção de objetos físicos mas, em vez disso, sob a forma de uma complexa teia de relações entre as diferentes partes de um todo“. (1975, O Tao da Física).

Assim como a meditação, há diversas práticas, algumas simples como a contemplação da natureza, que pode levar o genuíno cientista a experimentar um estado ampliado de consciência no qual tudo está conectado, onde o observador é o observado. Neste estado nos conectamos à dimensão do Sagrado que está além da dualidade das palavras e que só pode ser experienciada em primeira pessoa.