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Autor Convidado

“Cuidar da Paz” – por Roberto Crema

A violência brota de um tipo de alienação normótica, que Pierre Weil denomina de fantasia da separatividade. O ego representa o diabolos por excelência, fator básico da separatividade pessoal, que se encontra na fonte mesma da violência a nível individual, social e ambiental. Portanto, o egocentrismo pode ser considerado a causa comum de todo tipo de violência. E, naturalmente, não será com a lógica do ego que resolveremos este dilema, por ela mesma criada. Assim, uma terapia para a paz solicita, inexoravelmente, o resgate da dimensão transpessoal, da consciência simbólica inerente a uma mística, que se traduz pela consciência não dual, geradora do amor e do serviço em movimento.

Transcender o ego não significa negá-lo, destruí-lo ou suprimi-lo. Trata-se de sujeitá-lo ao Self, abrindo-o para o oriente do Amor e do Ser. Como afirma a sabedoria hindu, o ego é o melhor empregado e o pior patrão!… A primeira tarefa, no processo da individuação, proposta por Jung, é desenvolver um bom ego, enraizado no solo da cidadania, curado de suas feridas, pacificado em seus conflitos, apaziguado em seus temores.

Só podemos transcender o que foi reconhecido, aceito, desenvolvido e integrado. Só superamos o que já foi conquistado. O diabólico necessita ser orientado pelo simbólico; o bisturi retalhador precisa ser conduzido pela visão totalizadora e norteadora, capaz de ver a gestalt, a totalidade. Como afirma o sábio axioma holístico, Pensar globalmente, agir localmente. Para deixar de agir loucamente, convenhamos. (…) O todo descansa na parte e a parte só tem um sentido pelo todo. O um da unidade e o dois da dualidade são transcendidos no três, da Aliança: unidade diferenciada ou diferenciação unificada. Esta boa parceria da análise e da síntese, do diabólico e do simbólico nos conduz a uma inteligência da Trindade, arejada pelas energias do Amor, este mistério que nos vincula, realçando a alteridade de nossos semblantes. Ninguém é uma ilha, ninguém é completo em si mesmo. Cada ser humano é um pedaço do continente, afirma o famoso poema de John Donne. Mais sábia e inclusivamente, observa Anne Lindbergh, que todos nós somos ilhas, unidas pelo mesmo oceano…

Necessitamos superar a polaridade pessoal versus transpessoal. Maslow se referiu a quatro forças em psicologia e terapia: as duas primeiras, que surgiram praticamente ao mesmo tempo, são o behaviorismo, centrado no determinismo reflexológico e a psicanálise, centrada no determinismo psíquico. A terceira força é o movimento humanístico, centrado no potencial humano de saúde, na sua tendência para o desenvolvimento e autoregulação. Para este autor, esta seria uma força de transição para uma quarta força, transumana, centrada no cosmo e nos ampliados estados de consciência: o movimento transpessoal.

Compreendo que a quarta força foi um movimento compensatório, de resgate do fator transpessoal, após um século de uma psicologia exclusivamente a serviço do pessoal. Representa, também, uma dinâmica de transição para uma quinta força, centrada na inteireza, que integra a dimensão pessoal à transpessoal, o diabólico ao simbólico, as raízes às asas, a análise à síntese: o movimento transdisciplinar holístico. A abertura para o supra-humano pressupõe um bom enraizamento no infra-humano, no coração do fenômeno humano. Esta ponte que liga a terra ao céu, porta-voz de todos os reinos da Totalidade, o sacerdote cósmico, vislumbrado por Chardin, que facilita que o próprio Universo se mire, se conheça, se integre, se rejubile. Segundo André Chouraqui, a palavra hebraica para a paz, shalôm, é próxima de shalem, que significa inteiro. O que indica que a paz é uma emanação natural de uma inteireza lograda. A paz não é a ausência da guerra, mas a plenitude da existência humana, na fecundidade de todo o ser e na contemplação de IHVH, afirma Chouraqui.

A tarefa imprescindível é resgatar a inteireza e a grandeza da alma. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena, afirma o poeta Pessoa. Mahatma significa, em sânscrito, grande alma. Este foi o marcante testemunho do ícone de humanidade, que conhecemos como Mahatma Gandhi, que venceu o bom combate pela paz, utilizando apenas duas armas brancas: ahinsa e satyagraha, ou seja, não violência e veracidade. É importante destacar que, para Gandhi, existiam dois tipos de violência: a ativa e a passiva. Sendo que a última, que se traduz pela inércia e conformismo, é a mais destrutiva. O que ele indicava quando afirmava preferir um violento ativo a um covarde!

(…)

Uma terapia para a paz, portanto, solicita uma dimensão iniciática, como a proposta por Graf-Durckheim, que possibilite um abrir passagem para as trilhas interiores que, do ego, possam nos conduzir ao Self, do conhecido ao desconhecido, do finito ao Infinito, para que o dom da Essência se manifeste na existência, aberta a transcendência. Nesta perspectiva evolutiva, o humano é considerado um projeto inacabado, um germe de plenitude clamando por investimentos, para que floresça plenamente, através do processo da individuação. Pelo cultivo de uma ecologia do Ser, a paz poderá ser conquistada e irradiada para a ecologia social e ambiental.

*Este texto é uma parte do capítulo do livro, A Paz como Caminho, do Festival Mundial da Paz – Manifeste sua Paz (Florianópolis, de 1 a 6 de setembro/06), organizado pela Dulce Magalhães (Qualitymark editora). Confira o artigo na íntegra no site www.robertocrema.com.br

Roberto Crema formou-se em Ciências Sociais – Antropologia e em Psicologia. Realizou diversas formações humanísticas: Análise Transacional, Gestalterapia, Terapia Familiar, Bioenergética, Abordagem Centrada na Pessoa, Biodança. Em 1981 encontrou-se com Pierre Weil e, através do Cosmodrama mergulhou no movimento Transpessoal. Em 1987, com Pierre Weil, Jean-Yves Leloup e Monique-Thoenig, coordenou o I Congresso Holístico Internacional – I CHI, que impulsionou a fundação da Universidade Internacional da Paz – UNIPAZ. Como vice-reitor da UNIPAZ, introduziu no Brasil a Formação Holística de Base, que irradiou a universidade no Brasil, na Argentina, Portugal, França e Bélgica. Colaborou com Jean-Yves Leloup na criação do Colégio Internacional dos Terapeutas – CIT, que coordenou no Brasil durante vinte anos. Após a passagem de Pierre Weil, em 2008, assumiu a reitoria da UNIPAZ. Realizou um Master Europeen de Recherche na Universidade de Paris 13 em conjunto com a de Louvain-la-Neuve (Bélgica), a de Genève (Suíça) e o Cnam (França), centrada na Formação Holística de Base da UNIPAZ e sua convergência com a Abordagem Biográfica. É membro honorário da Associação Luso Brasileira de Transpessoal – ALUBRAT, Fellowship da Findhorn Foundation, autor e coautor de mais de trinta livros.

Roberto Crema estará de 03 a 04 de agosto em Curitiba.
Para mais informações, acesse o site da Unipaz Paraná

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