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Homenagem

Entre dois extremos – por Dulce Magalhães

Arquétipos são imagens no imaginário, no inconsciente coletivo, que nos inspiram, moldam, definem nosso modus operandi, posicionam nossa forma de ver a vida.

Os mitos trazem ao consciente estes arquétipos e nos permitem compreender a realidade que estamos vivendo e nos libertam para fazer escolhas que nos permitam novas realidades.

Um dos grandes arquétipos do mundo é o deus hindu Shiva. Ele dança a criação da realidade, equilibrado em um só pé, enquanto seus múltiplos braços vão dando forma a todas as coisas. Por isso ele é um arquétipo do equilíbrio. Ele faz tudo sem sair de seu eixo, está em completa coerência e, portanto, se torna indestrutível.

Shiva representa o equilíbrio porque nos mostra a diferença entre estar equilibrado e viver em harmonia. Na harmonia tudo está bem e no centro estamos nós em tranquilidade. No equilíbrio tudo está em mutação, as coisas estão ocorrendo com velocidade e os desafios não cessam, mas no centro nós podemos permanecer em tranquilidade.

O equilíbrio exige que sejamos capazes de viver a coerência entre o sentir, o pensar e o fazer. Isto exigirá distância dos extremos. Nem a dor profunda, nem a alegria absoluta. Não comemoramos as vitórias como se fossem o maior feito de nossa história, contudo não choraremos as derrotas como se fossem amargos fracassos.

O abençoado caminho do meio, como nos ensinava Confúcio, é a melhor forma de caminhar. Tudo passa, o bem e o mal, o erro e o acerto, a tristeza e a alegria, o triunfo ou o fracasso. O que não passa e que liga todos os pontos da vida é a lição aprendida.

Bons aprendizes vivem em equilíbrio e são capazes de encontrar a harmonia, pois percebem, com o tempo e com a reflexão, que estas atribulações que impactam nossa rotina e colocam de cabeça para baixo nosso cotidiano são meras ilusões. O mundo É. Nós é que imaginamos que deveria ser de outra forma ou acontecer de uma outra maneira.

O mundo é o território e nossas expectativas são o mapa. Quando não gostamos do que acontece na realidade, costumamos dizer que aquilo está errado, afinal não bate com o que esperávamos. Todavia, é o mesmo que dizer que o território está errado porque não está de acordo com nosso mapa.

A vida é uma sucessão de lições que, ao serem aprendidas, nos levarão para novas e maravilhosas etapas de experiências e realizações. Contudo, algumas pessoas ficam encalhadas na briga interior entre o território e o mapa, desejando que a realidade mude para se adequar às expectivas que se almeja.

Só quando aceitamos que a realidade é como é, poderemos transformá-la. Fazer uma aliança com o que queremos e nos transformarmos para sermos o que almejamos. Aí a realidade será outra.

Nada está fora, tudo é interno. Quando o que eu sinto, coincide com o que penso e está afinado com o que faço, essa coerência me permite expressar o maravilhoso dom do equilíbrio e me torno um criador de realidades, pois toda realidade é fruto desses três aspectos da vida: sentir, pensar, fazer. Enquanto eu quero (sentir) mudar um hábito, penso (pensar) que é difícil, e deixo (fazer) para uma próxima segunda feira, minha realidade não muda e fico vivendo a frustração de não viver o que desejo.

A coerência me traria uma mudança imediata e eu viveria já a nova realidade. Sendo assim, a mudança é fruto da coerência. E a coerência é uma das bases do equilíbrio. A outra base é a compaixão, que exigirá o exercício do amor, do afeto, da compreensão de minhas próprias dificuldades e das dificuldades do outro. Só assim serei capaz de superar aquilo que não desejo e transpor as dificuldades que tenho para promover qualquer mudança.

Sem coerência e sem compaixão não sou capaz de caminhar pela vida com equilíbrio, e sem este não poderei superar as barreiras que o desequilíbrio provoca, me impedindo de viver o que desejo e alcançar meus propósitos. A equação é simples, coerência mais compaixão é igual a equilíbrio e equilíbrio é a condição para promover e viver mudanças desejadas.

Que o próximo período de sua vida seja repleto de coerência e compaixão, que tudo mais será alcançado por acréscimo.

Dulce Magalhães (1966 – 2017), Ph. D. em Filosofia com foco em Planejamento de Carreira pela Universidade Columbia (USA), Mestre em Comunicação Empresarial pela Universidade de Londres (Inglaterra), Pós Graduada em Marketing pela ESPM-SP, Especialização em Educação de Adultos pelas Universidades de Roma (Itália) e Oxford (Inglaterra), Representante Brasileira no Seminário de Cultura e Comunicação da Unesco – USA.

Colaboração do Instituto Dulce Magalhães: www.dulcemagalhaes.com.br

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